Arles.IO

Meros devaneios tolos...

Ando entretido com um brinquedo novo: os dados do Telegram.

É possível, com poucas linhas de código ter, por exemplo, acesso a todo histórico de mensagens e ações de canais e grupos públicos.

O Telegram tem uma API aberta. Ao mesmo tempo em que isso garante possibilidade de auditoria da Plataforma, garante também maior automação, que nesses tempos sombrios tem servido à desinformação.

Diferentemente de outras grandes plataformas, o Telegram não tem representação no Brasil e seus donos parecem pouco dispostos a cooperar com as autoridades brasileiras. Enquanto era uma plataforma pequena isso não se configurava um grande problema, mas diante do crescimento diário do Telegram, as autoridades brasileiras começam a se preocupar.

Só espero que isso não termine na suspensão da Plataforma, como o Judiciário e outras esferas do poder tentaram com outras plataformas em outros momentos.

É na criatividade e na possibilidade de auditoria/automação que está a chave para tentar evitar que a Plataforma seja usada para a desinformação e para o enfraquecimento democrático.

O Twitter, ao que tudo indica, está fazendo algumas mudanças na plataforma:

  • Suspendeu algumas contas antes do 7 de Setembro (o motivo alegado, como sempre, é infração às políticas da comunidade. Sei de alguns casos onde a acusação, principalmente de spam, é injusta. Já outros, apesar da choradeira, são genuínos);
  • Alguma coisa parece que mudou no algoritmo dos Trending Topics. No mesmo 7 de Setembro foi possível notar, pelo menos a olho nu, que alguns termos com forte suspeita de automação tiveram mais dificuldade de sobressair;
  • Finalmente anunciou o tão esperado selinho para “bots do bem”. Isso é importante pois, com essa medida, pode-se avançar na detecção e remoção de bots não-éticos. Uma das alegações para não se tomar medidas mais duras contra automação na Plataforma era a de que bots, em si, não são vilões.

Esses são alguns sinais de qua a Plataforma pode estar mudando suas diretrizes para contas automatizadas. Só saberemos se dará certo com o tempo. A princípio acho que teve um erro de timing dependendo do alvo a ser atingido. Se for para conter tal tipo de automação no próximo ano, por exemplo, pode ser que o tempo da medida esteja errado, já que dará tempo para adaptações por parte dos que usam de tais expedientes.

FLOPOU! HAHAHAHAHAHA

Meu medo não é o golpe que será. Bolsonaro não tem condições de um golpe armado, neste momento.

Nem estão com a força toda da máquina atuando nas redes. Sabem que se afirmarem que as manifestações serão enormes e floparem, parte da base ficará decepcionada.

Meu medo é do golpe que já foi. Bolsonaro franqueou as milícias pelo Brasil. Os negócios da milícia deixaram de ser nos territórios que dominam, para ser no mundo global da Internet.

Bolsonaro, como CPF, já era. Provavelmente não dura no poder o ano que lhe falta na Presidência.

Meu medo é o pós Bolsonaro. Essa gente sem uma face visível e minimamente controlada pelas instituições pode ser mais perigosa do que é hoje.

Todes sabemos da importância do Whatsapp nas eleições 2018 para o sucesso da comunicação em redes do bolsonarismo.

O processo de uso do Whatsapp para concentrar e articular redes se funda na questão de que ali são estabelecidas conexões de confiança-cumplicidade muito fortes, chagando a Plataforma a ser citada por 79% dos entrevistados quando perguntados por onde se informam na última pesquisa DataSenado.

Agora imaginem este processo acontecendo no Telegram. A Plataforma dos irmãos Durov é muito mais dinâmica que o Whatsapp, tendo bots e uma API mais aberta, onde é possível criar vários níveis de automação.

Além disso, ao contrário das plataformas ocidentais, os Durov geralmente não respondem tão cordialmente às solicitações de limitação à Plataforma como o Facebook, por exemplo.

Aqui fica o alerta já para essas próximas eleições para que se aumente a observação sobre o Telegram. Talvez ainda não seja dessa vez o uso massivo da Plataforma para a ação política no Brasil, mas será sim já um importante instrumento de mobilização de redes.

Publicado originalmente em 13/01/2020

Não sou bom nisso, mas vou tentar explicar:

Redes sociais só funcionam para disseminação de ideias e até mesmo do ponto de vista mercadológico se você pagar.

Os algoritmos implementados e sofisticados (principalmente a partir de 2013) pelas principais plataformas “cercaram os campos” não só para a criatividade nas redes, mas para a livre circulação de ideias.

É ilusão pensar que nas redes sociais digitais há livre circulação de ideias e que todos têm os mesmos instrumentos para disseminá-las, em igualdade. Essa ideia de redes sociais como território livre e igualitário tem que ser inserido antes da mediação algorítmica.

Os intermediários que antes eram os grandes meios de comunicação hoje são as empresas de redes sociais e seus algoritmos. Como no Capitalismo quem ganha é quem faz a intermediação, não é de se admirar que essas empresas sejam hoje as maiores do mercado.

Essa questão da mediação e da circulação de ideias submetidas aos ditames algorítmicos dessas empresas e o favorecimento do poder econômico do “quem tem mais, chega a mais gente” foi agravado no Brasil do ponto de vista eleitoral quando se colocou a proibição de impulsionamento pago fora das plataformas comerciais.

Isso, implementado devido ao forte lobby das plataformas, foi decisivo para o cenário que temos hoje, onde se têm a ilusão que somos livres para falar, mas não se vê com tanta clareza que as barreiras levantadas dificultam ainda mais, num quadro de abundância informativa, as chances de sermos ouvidos.

Há que se atentar para que, no cenário político, submeter a igualdade ao poder econômico desequilibra o jogo. O que deveria ser feito era a proibição total de impulsionamentos pagos, dentro ou fora das plataformas, para que se tornasse mais difícil – mas não impossível – o desequilíbrio informativo baseado no poderio econômico.

Quem aposta hoje nas redes sociais digitais como canal único para a disseminação de ideias está apostando errado. Existem, outrossim, atalhos por onde os algoritmos não alcançam ou alcançam de forma diversa aos das redes sociais stricto sensu. É o caso da dinâmica das redes opacas ou mensageiros instantâneos, que têm outra lógica na mediação, pelo menos nesse quadrante histórico.

Mas isso é papo para mais um textão.

Tá vendo esse gráfico seu moço?

Pois é, aí estão as buscas pelo termo “mastodon” no Google este ano.

Tá vendo aquele pico ali no final?

É o aumento repentino causado, entre outras coisas, por uma forte migração de brasileiros para a plataforma Mastodon, que é escrita sobre o protocolo ActivityPub, e que compõe o Fediverso.

Brasileiros saíram do Twitter pois a Plataforma comercial está infestada de fascistas, e os donos da plataforma se recusam a defenestrá-los.

O Mastodon é uma promessa, com sua moderação também distribuída, de dias mais calmos para quem não quer conviver com o fascismo.

Mas não importa muito o tamanho e se a migração vai fazer com que a Plataforma livre cresça e se desenvolva continuamente entre/para os cidadãos conectados brasileiros.

Só de as pessoas estarem discutindo temas como montagem de servidores próprios, moderação de comunidades públicas, códigos livres, mediação algorítmica comercial, Capitalismo de Vigilância... já é um grande avanço.

A direita não tem um esquema de comunicação em Rede. Ela tem um esquema tecnopolítico. E que também é um projeto econômico, que traz dinheiro pra engrenagem enquanto serve também para lavar dinheiro.

Vocês não acham estranho Bozo estar até hj sem partido? Para políticos como ele partidos nanicos servem como lavanderia de dinheiro. Ele não sobreviveria politicamente sem um esquema assim. É também para isso que o esquema de redes do bolsonarismo é usado.

Se por um lado parece coisa menor, de gente ávida por dinheiro, por outro pode significar uma pá de cal nos partidos e sua mediação junto à sociedade. Ainda mais se a lógica neoliberal prevalecer.

É que partidos são construções coletivas, e o neoliberalismo prima pelo individualismo. Junte isso com os esquemas de “coletivos” bancados por grandes empresários e até com o Distritão e a fórmula neoliberal na Política se completa.

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